Reticências

19 12 2008

0073_by_zigurat84

(HJ)

Você já parou pra pensar no que você é? Afinal, qual o sentido desta pergunta? Como assim o que eu sou? Enfim, eis a questão.

Esquecendo toda a conotação que cerca minha mente e insiste em me confundir, posso dizer que sou simplesmente mais um humano neste mundo cruel e injusto. Sou uma pessoa com problemas, pouco mais que umas pouco menos que outras, quase ímpar.

Sou ingênuo e não sei quase nada. Sigo aprendendo a cada dia uma coisa nova. Vou agregando conhecimento e agregando valor a mim mesmo. Vou melhorando em várias coisas e me estragando em outras. Me confundo fácil e não sei escolher nem decidir. Não faço quase nada direito. Não sou o melhor em nada e sou péssimo e muitas coisas. Já adianto que não aposte em mim, não espere de mim coisas extraordinárias, nem coisas medíocres. Pra ser sincero, não espere nada de mim.

Eu mudo com muita facilidade. Sou falso, dissimulado, falo mal das pessoas, faço pirraça e dou risadas forçadas. Eu tento não mentir e não trair. Acho feio. Sou tenso e fico nervoso por coisas banais. Não faço grandes amizades com facilidade, no máximo um coleguismo de momento, até que eu me canse, todavia é óbvio que há exceções.

Não demonstro tristeza. Eu choro escondido, por dentro. Me autodestruo com sentimentos de culpa e não tenho confiança em mim mesmo. Também não demonstro alegria. Vibro silenciosamente e muitas vezes apenas solto um suspiro de dever cumprido. Talvez meu olhar e minha expressão me condenem, mas nada que alguém um pouco mais espontâneo perto de mim não possa ofuscar.

Não cuido da minha saúde. Só como porcaria regada a muito óleo, gordura, sal e açúcar, sim açúcar. Não pratico esportes. Não leio livros. Estou sempre carente, um pouco triste e melancólico. Estudo meio que a contra gosto, na véspera das provas, e me irrito com quem me manda estudar ou com quem diz que já estudou.

Adoro dormir, mas não gosto de ir dormir. Demoro pra dormir. Me vêm milhares de pensamentos ao mesmo tempo que me impedem de descansar em paz para um novo dia. Queria poder deitar e dormir. Acordar também é chato, principalmente se eu sou acordado. Prefiro dormir até não agüentar mais, acordar e ter uma coisa boa pra fazer. Eu sou vagabundo. Não gosto de fazer o que tem pra fazer. Fico procurando alguma coisa a mais. Eu quero algo além, algo que não existe.

Odeio sair sozinho, mas adoro sair com os amigos, o problema é que é preciso quase que me carregar por aí pra eu sair da toca. Gosto de beber, beber muito, dois litros de refrigerante pra mim é pouco, eu gosto é do excesso. Não sei dirigir direito, estou sempre fazendo uma besteira lá, uma barbeiragem ali, sempre passando uns apuros.

Não trabalho, sou vadio e não me vejo com vocação pra nada. Quem sabe para o serviço de deitador de cama e escutador de música. Sou um completo dependente dos pais. Não tenho dinheiro, não tenho liberdade, não tenho nada. Sou idiota. Faço merda e não adubo a vida, só me sinto culpado e idiota. Sou anão e não gosto de ser. Eu me odeio. Queria poder dormir por um bom tempo. Não morrer, mas dormir e acordar qualquer dia desses pra ver se o mundo melhorou.

Já acreditei em milagres, em Deus, nessas coisas espirituais. Hoje em dia não acredito mais em nada. Não rezo, não espero por milagres, não acredito que exista esse Deus que falam por aí. Talvez exista outro, diferente. Um que ninguém conhece e que não é preciso ficar bajulando, puxando o saco.

Não sei falar com as pessoas, talvez por timidez, talvez por não ter com quem falar. Na verdade me sinto idiota falando certas coisas, até porque, como eu já falei, eu sou idiota. Não tenho namorada, nem nunca tive. Não tenho capacidade pra isto. Nunca falei um “eu te amo” pra alguém, assim ao vivo e a cores, a não ser muito bêbado num momento de carência profunda. Eu me apaixono fácil e desapaixono difícil. Sou apaixonado por um número elevado de garotas, umas mais, outras nem tanto, mas todas com algo em comum, nunca ouviram isto de mim. Sou idiota.

Eu demoro pra pensar, o tempo pra mim é uma merda. Odeio o tempo. Sempre fui uma pessoa atrasada, ingênua, o último a amadurecer, o último, ou então o primeiro, o gaiato, aquele que se ferra antes dos outros. Eu queria que não houvesse tempo, ou então que eu tivesse meu próprio tempo, sem pressão, sem prazo.

Uma das poucas coisas que eu gosto de verdade é música, gosto de fazer música, ouvir música, pensar em música. Também gosto de escrever, conversar comigo mesmo, esperando que alguém leia. Mesmo assim, às vezes não gosto de música, nem de escrever. Sou um péssimo músico, não tenho o talento que queria ter. Também não sei escrever, não sei utilizar pontuação e minhas idéias são aleatórias, desconexas.

Enfim, este sou eu, simplesmente. Eu sou uma incógnita, assim como uma reticência. Muda e querendo dizer alguma coisa.


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