Noção

16 07 2009

(HJ)

A gente já nasce sonhando, ou melhor, antes de nascer já sonhamos. Nem sabemos o que virá, qual será a nossa vida, mas já temos sonhos, antes mesmo de conhecer qualquer coisa. É aí que nascemos e somos apresentados ao mundo real. Os sonhos tornam-se constantes, queremos tudo. Achamos que tudo está a nosso alcance, não temos escrúpulos nem bom senso. Brigamos feito doidos por qualquer coisa, mesmo que impossível, mesmo que inconcebível. A ingenuidade nos dá motivação de vida, tudo é tão realizável, se não hoje, algum dia.  Temos a certeza de uma vida próspera pela frente, somos movidos pela esperança de que tudo um dia se resolverá. Não há nada que impeça-nos de seguir em frente. A esperança está acesa dentro de nós e encaramos tudo sem desilusão. Mal percebemos que tudo não passa de sonhos. Tudo é imaginário, a sensação de controle, a noção de perigo, a motivação. E começamos a perder o controle, entramos num ambiente de perigo constante, começamos a perder a motivação. O tempo passa. A vida prega peças, nos tira as esperanças. Os problemas começam a se tornar perpétuos e, se não bastasse, surgem novos entraves, cada vez piores, cada vez mais cruéis. O amor a vida torna-se remoto. O desgosto toma conta de nossos dias e parar para pensar torna-se um risco a própria pele. Passamos a viver por obrigação ou por covardia. Por puro azar, nascemos para viver e não importa o tamanho do desgosto, temos medo da morte. Viramos seres sintéticos, comemos comidas sintéticas, tomamos remédios sintéticos, nos prendemos a instrumentos sintéticos com os quais nunca haviamos sonhado. Nosso corpo que nunca foi o que sonhamos não aguenta e já não é só nossa mente que está comprometida. Nos proibem alimentos, nos receitam desânimo e a única coisa que nos resta são algumas pessoas em quem confiar. Vivemos por elas. E então, elas começam a tornar-se cada vez mais escaças. O desgosto em existir nos torna chatos, talvez incompreensíveis, ou até mesmo malucos. Algumas pessoas se afastam, outras se vão e nós permanecemos imóveis. Cada vez mais só e com menos motivação, já não mais vivemos para si. E depois de tanto tempo, olhamos para trás e vimos a quantidade de coisas que perdemos, o número de coisas que não aconteceram. A sanidade se desfaz. Não há mais romances, não há mais amigos. A família reduzida e a nossa obrigação de vida quase que se desfaz. Coisas materias tentam roubar um lugar no nosso coração. Enlouquecemos por coisas mortas e já não mais vivemos. Deixamos de sonhar e imaginamos o passado diferente. Sem mais noção do tempo, vegetamos até a hora do auto-apocalípse, infartados de desgosto, menos orgânicos, menos humanos, fechamos os olhos e perecemos decepcionados. A energia acaba e o coração já não bate mais.


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